Leitura para Professores

Como construir a disciplina na escola

Entender o objeto indisciplina e estabelecer um pacto entre alunos e professores conduz à disciplina

Foto: Getty Images

Há algum tempo, a indisciplina tem sido o assunto da vez nas escolas de vários países do mundo, inclusive nas instituições brasileiras. As queixas dos professores sempre recaem sobre o comportamento dos alunos, e há até pesquisa que indica a indisciplina como um dos principais fatores de desistência da profissão docente. Quem de nós nunca ouviu alguém comentar que os alunos de hoje estão muito mais difíceis do que os alunos de antigamente? Que o professor não tem mais o respeito que já teve em outros tempos?

Se, por um lado, há algumas décadas a indisciplina dos alunos tem se mantido no topo do ranking dos problemas mais desafiadores da educação, por outro há escolas que estão dando exemplo de como tornar o seu ambiente mais harmônico e de como estabelecer níveis toleráveis de indisciplina. De modo geral, as escolas que não padecem de problemas de indisciplina têm, quando menos, dois aspectos em comum: elas já enfrentaram sérias dificuldades relacionadas ao comportamento dos alunos e resolveram enfrentar a questão a partir da formação dos seus educadores. Os profissionais dessas escolas entenderam que seria necessário desnaturalizar o problema e, nesse sentido, a apropriação conceitual seria o primeiro caminho a ser seguido com vistas à superação da indisciplina. Os gestores e professores concluíram que deveriam entender o que estava acontecendo em seu contexto específico, mas que também deveriam levar em conta a necessidade de se criar um significado compartilhado do objeto indisciplina, a partir das pesquisas e da literatura disponíveis.

(...) Nessa caminhada de trabalho, pesquisa e discussão com outros educadores as perguntas que mais têm aparecido são:

● Por que os alunos de hoje estão tão indisciplinados? 

● É possível resolver o problema da indisciplina na escola? 

● O que as escolas fizeram para acabar com os casos graves de indisciplina?

● Quais são os fatores que geram a indisciplina na escola? 

● Por que os professores perderam a autoridade?

Para início de conversa

Para que não haja problemas sérios de indisciplina, é necessário que a escola se preocupe em construir a disciplina que deseja.

Democrática ou autocrática?

- A primeira prima pelo respeito e pela participação direta dos alunos e tem como produto do seu processo o consentimento.

- A segunda opta pela imposição das regras a partir do topo da hierarquia na escola, sem levar em consideração o desejo dos alunos e tem como exigência fundamental a obediência.

A experiência tem demonstrado de maneira eloquente que o caminho antidemocrático tem como marca principal o fracasso. Escolas que não compreendem a necessidade de considerar a participação dos alunos têm enveredado pela via da repressão e do disciplinamento. Apostam na punição cada vez mais severa dos desvios dos alunos, além de se transformarem em verdadeiras fortalezas, em que as grades simbolizam a separação e a restrição entre os que mandam e os que obedecem. Não é necessário dizer que o caos tem se aprofundado nessas escolas.

Em contrapartida, aquelas escolas que obtiveram êxito no processo de construção da disciplina foram aquelas que apostaram na participação dos alunos e da comunidade escolar. Essas escolas geralmente começam as mudanças repactuando as regras com os alunos a partir da revisão do seu regimento escolar.

Experiência da escola Brasil Japão, localizada no bairro do Rio Pequeno, em São Paulo, cuja atual gestão levou à retirada das grades em 2017.

Os fatores do sucesso

As regras

Repactuar as regras com a participação dos alunos e da comunidade, começando dos direitos para depois tratar dos deveres, ainda que eles também sejam importantes. No entanto, começar discutindo os direitos é uma boa demonstração do que deve prevalecer quando se quer regular a boa relação entre todos. Este gesto sinaliza que a função da regra não se limita a restringir, mas garantir direitos também.

A coerência

Zelar pelo cumprimento das regras é tão importante quanto estabelecer o que deve e o que não deve ser feito. Nesse caso, há coisas que não devem ser feitas por todos da escola e não apenas pelos alunos. O uso do celular pode ser um bom exemplo, visto que ele é muito presente no cotidiano das pessoas e consequentemente nas escolas, o que tem levado alguns estados a proibir o seu uso. Em que pese a controvérsia sobre o uso da tecnologia na sala de aula, não é o nosso objetivo abordar isso aqui. Nesse sentido, não é razoável que alguns professores exijam que os alunos não usem o celular em sala de aula e outros negligenciem isso. Na maioria das vezes são essas incoerências que inviabilizam a validade das regras no contexto escolar.

Os dispositivos de acompanhamento e solução de conflitos

Evidentemente não basta criar boas regras e nem considerar a participação dos alunos apenas no momento de elaboração delas. Estabelecer as maneiras de resolver os impasses e envolver os alunos nisso também é fundamental. Nesse sentido, as assembleias tem sido o caminho adotado. Quando há um conflito, ou alguma regra é desrespeitada, o coletivo diretamente envolvido deve se reunir e discutir a questão, seja no âmbito da sala de aula, seja no âmbito mais geral da escola. Apesar de ser trabalhoso e exigir tempo os resultados compensam o esforço.

A impessoalidade da regra

Parece redundante e óbvio falar em regra impessoal, mas entender isso é fundamental para o sucesso da construção da disciplina na escola. Afinal, nem toda obviedade é tão óbvia como parece ser, principalmente em uma organização plural como a escola. Nas escolas em que as regras não são claras, ou o desrespeito a elas é flagrante, os desfechos variam de acordo com as pessoas responsáveis em fazer a mediação e, principalmente com o humor dessas pessoas no momento da mediação. Em razão disso, na maior parte das vezes, pode haver incoerência entre o ato de indisciplina e a medida imposta ao autor. Ora o humor do mediador redunda em abrandamento, ora em punição muito severa.

Com as regras claras e impessoais e os conflitos sendo resolvidos coletivamente as idiossincrasias e as variações de humor perdem importância, porque quando os problemas são resolvidos coletivamente a contextualização do problema pode ser um fator importante, sem, no entanto, incorrer no risco da relativização em que a punição depende da sociabilidade e do carisma de quem cometeu o desrespeitou à regra.

Democracia e aprendizagem

Simplesmente tornar os alunos dóceis para que o trabalho pedagógico flua e o professor não padeça com a indisciplina em sala de aula não basta. O objetivo não é acalmar os alunos para que os profissionais da educação não adoeçam. O acesso ao conhecimento,  bem cultural produzido social e historicamente pela humanidade e veiculado na escola,  é a grande razão de existir dessa instituição e dos educadores. A ordem a ser instituída visa à garantia da aprendizagem e da boa convivência entre aqueles que fazem parte da escola. Afinal, a aprendizagem é um fator organizador da disciplina e não o contrário. Resulta disso o consenso construído pelos educadores que se apropriaram desse tema: a disciplina não é condição para a aprendizagem, é produto dela.

O acesso ao conhecimento deve ser visto como parte do processo democrático na escola e não apenas a participação nos momentos de escolha e de decisão. Se isso for devidamente compreendido teremos a máxima que deve ser observada por todas as escolas: não basta que a escola seja democrática, ela deve promover a democracia.

Adaptado de https://gestaoescolar.org.br/conteudo/1964/como-construir-a-disciplina-e-o-clima-de-paz-na-escola?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=Conte%C3%BAdo _Site_seguidores_ge&utm_content=clima-de-paz&fbclid=IwAR1j9IJEapNGFQQ0jyAUxToWZIeFBk1 LuJRhIS _ciOHSqZU0My6O704-4w0

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