Leitura para Professores

Para quem já nasceu livre dos formatos

Você pensa que está tudo estabelecido, mas o trabalho do educador não é só de reprodução. É também um espaço de criação.

Alunos do Projeto Âncora     Foto: Rafael de Freitas

No Projeto Âncora, uma associação filantrópica, não existem aulas e nem séries. A organização é por núcleos de aprendizagem: iniciação, desenvolvimento e aprofundamento – cada um com seu propósito. “Independentemente da idade, as crianças são organizadas pelo grau de autonomia. Isso não significa que uma criança de três anos vai ficar junto com uma de 12, porque os graus de autonomia são diferentes”, explica Edilene Morikawa, coordenadora pedagógica do projeto.

Nesses núcleos, as crianças ganham autonomia para tomar decisões, desenvolver seus percursos de aprendizagem e construir senso de responsabilidade individual e coletivo.

Eles compartilham mesas coletivas, quadradas, redondas, mas também individuais. Mas não são elas que definem a mudança. “Para nós, a mesa é apenas mais uma ferramenta para desenvolver algo maior. Não é ela que determina se uma criança aprende mais ou menos dependendo de como se posiciona”, diz a coordenadora.

No Âncora, todo o território escolar é realmente visto como espaço de aprendizagem: salas de aula, da coordenação, refeitório, horta e outros espaços abertos. A inspiração também veio da Ponte, em Portugal.

O impacto da mudança

“Precisávamos sair de um modelo tradicional em que o professor só se preocupava com as suas turmas e seu trabalho para ter um espaço coletivo”.

Sala de aula da EM Waldir Garcia, em Manaus   Foto: Karla Vieira/Secom

“Com a mudança das carteiras, a gente começa a mudar outras coisas”, admite Lúcia. É preciso construir novas relações entre professores e alunos, mudar atitudes diárias, o modo de ensinar e de orquestrar a dinâmica da sala. Sem o foco na lousa e no professor, opta-se por trabalhar com roteiros de estudo e pesquisa. Qual a vantagem? O respeito ao ritmo de aprendizagem de cada aluno.

“A gente até usa a lousa ainda, mas não é o principal”, afirma a diretora da Waldir Garcia, em Manaus. Na avaliação da formadora Célia Senna, o objetivo da mudança da organização do espaço é justamente para que o modo tradicional de ensinar seja revisto. “Nada impede que, em um primeiro momento, as instruções estejam na lousa e se vá adaptando aos poucos. A possibilidade de um material impresso, como os roteiros, é uma opção interessante”.

Em outra escola, foi uma doutoranda de Linguística da USP que trouxe a proposta de desenvolver roteiros. “A partir da vivência da nossa escola, ela inventou um jeito de trabalhar os livros didáticos. A partir de temas como memória ou cidades, trabalhamos interdisciplinarmente Ciência, História, Geografia, Língua Portuguesa”, conta Ana. Deu certo. A metodologia é usada até hoje por eles.

O modo como o roteiro é trabalhado depende do nível de autonomia do estudante. “O processo de autonomia é uma construção. Uma criança de cinco anos precisa de um acompanhamento mais próximo do educador”, destaca Edilene, coordenadora do Âncora. No entanto, conforme avançam, elas podem contar mais com o auxílio do grupo e menor apoio do educador.

“Eu acho que a mudança não é mexer nas carteiras ou melhorar a lousa. Vai muito além: 
é repensar todo o projeto pedagógico e a concepção de Educação”.

As vantagens encontradas no novo formato

A primeira vantagem é a quebra do estigma que separa os bons alunos dos ruins: quem ocupa as primeiras carteiras são os alunos dedicados, os “CDFs”, enquanto o fundão fica por conta dos bagunceiros. “Nessa disposição, fica mais fácil perceber o que estão fazendo. Dificilmente alguém vai se debruçar na carteira para dormir em grupo”, diz Célia. Mas a lista de ganhos é longa, de acordo com as escolas: amplia a inclusão de crianças com deficiência e de alunos estrangeiros, melhora a convivência e colaboração tanto entre estudantes quanto professores, maior respeito ao tempo dos colegas e, consequentemente, a aprendizagem ganha muito.

Se elas voltariam ao modelo tradicional? “Não”, afirma a professora Eliane. Ana endossa: “Eu acho que a responsabilidade que eu sinto hoje é muito mais forte. Essa dimensão do nosso trabalho tomou outra proporção com as mudanças da Amorim Lima”. Para Lúcia, a resposta vem das crianças novas que chegam à escola. “Quando pergunto o que eles acham, a resposta é de que é a escola dos sonhos deles: onde eles conversam, são ouvidos e participam”, diz a diretora.

Adaptado de https://gestaoescolar.org.br/conteudo/1975/fileiras-na-sala-de-aula-nunca-mais?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=Conte%C3%BAdo_Site_seguidores_ge&utm_content=fileiras-sala-de-aula&fbclid=IwAR3HvH7dRr6sCnAt9LZQKLF8nF8f c0mti8OQ6ETkpo6T4xHzJHHa5cxO7VU

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