Sugestão de Leitura

Nossos alunos precisam aprender a construir conhecimento

Para a filósofa Viviane Mosé, a escola contemporânea precisa saber ensinar o aluno do século 21 a aprender a aprender

A cada dia que passa, as pessoas estão cada vez mais conectadas. Imersos numa cultura de rede, os alunos deste novo século têm diante de si uma infinidade de informações, tudo a um simples clique. Uma realidade bem diferente daquela que o seu professor teve no passado. Esse é um dos principais aspectos que, segundo a filósofa e professora universitária Viviane Mosé, faz com que as nossas instituições de ensino se distanciem de um modelo contemporâneo de escola.

Crítica de uma educação de massa, que despreza a individualidade de cada estudante, Viviane afirma que para melhorar a qualidade do ensino, é preciso criar uma “nova escola”. “A nossa educação é ruim em todos os níveis, inclusive o universitário, que ainda forma os professores para o século 20. Mesmo que a educação básica pública venha melhorando a cada ano em relação à escola privada. Precisamos mudar profundamente nosso sistema de ensino. Mas trata-se de uma mudança mais profunda, uma mudança conceitual. Temos que ensinar os nossos alunos a aprender a criar conhecimento. E trabalharmos dentro de uma lógica de rede, conectando os saberes de forma multidisciplinar”.

Para melhor entender as ideias de melhoria do sistema de educação do país e o conceito de escola contemporânea proposto pela filósofa Viviane Mosé, confira a seguir a entrevista:

A senhora defende a ideia de que nossas escolas poderiam ser melhores se elas fossem mais contemporâneas. Esse é um dos grandes desafios de hoje? Sim. Para termos uma educação contemporânea é preciso sabermos ler a sociedade atual que nos rodeia. Hoje, no nosso país, temos mais de um celular por habitante. Somos umas das nações que mais utiliza os telefones celulares. E com a revolução tecnológica, é possível ter acesso por meio dele a, praticamente, tudo sobre história, atualidades, ciência, filosofia. Sendo assim, por que os alunos ainda precisam decorar as margens dos afluentes do Amazonas e a tabela periódica? Pelo seu próprio celular ele sabe que a qualquer momento ele pode conferir essas informações na palma da mão. Os alunos precisam é ser instruídos a selecionarem e filtrarem os conteúdos que já estão disponíveis na internet.  As escolas precisam se dar conta desse contexto e trabalhar dentro de uma lógica de atividades que foquem nos interesses dos alunos, mas claro, sempre considerando os parâmetros curriculares.

O foco, então, seriam os interesses dos alunos? Exatamente. Os nossos alunos precisam aprender a aprender. Escolas contemporâneas estão mais preocupadas com a aprendizagem do que com o ensino. Temos que buscar estimular nas nossas crianças a capacidade de reflexão, de argumentação e criticidade.  E oferecê-las, dentro das diversas possibilidades, caminhos para que elas encontrem seus principais interesses.

Para tanto, os professores precisariam ter uma nova postura em sala, não? (...) Os professores contemporâneos precisam se colocar como gestores de sala de aula. Funcionando como técnicos, guias dos alunos. Orientando de forma multidisciplinar os estudantes. Ele não precisa saber de tudo, mas precisa ser alguém antenado.

Para que essa postura seja estabelecida, é preciso, então, uma ampla reconfiguração do nosso modelo de escola… (...) Não temos escolas corajosas para enfrentar esse contexto atual. A realidade das crianças não são temas frequentes de aula. A escola tem que ser um espaço democrático onde alunos, professores e comunidade discutam os rumos da unidade. O nosso sistema de educação tradicional atual acaba transformando nossos alunos em seres repetidores e não em indivíduos que produzem pensamentos particulares, que são conteúdos mais valorizados e mais úteis à sociedade.

(...) a senhora também defende que a escola precisa “ir” mais à cidade. O que isso significa? A escola precisa se apropriar da cidade. Professores e alunos devem sair mais juntos das escolas. Todos vão gostar mais de sair. Atualmente, estou participando do desenvolvimento do projeto no Espírito Santo que talvez chame Itinerário Educativo. Com apoio da iniciativa privada e adesão da secretaria de educação de Vitória, pretendemos criar itinerários pedagógicos que mesclem circuitos culturais, ambientais e produtivos. Mas o circuito não é passeio, é dar aula, discutir, pensar o ambiente. Ao invés de dar aula sobre peso na sala, a ideia seria que essa aula se desse numa padaria. (...) Assim, o aluno aprende mais rápido a matemática, por exemplo, e a cidade ficaria mais humanizada.

Trata-se de mais uma evidência que o conhecimento aprendido por meio da prática vem ganhando mais espaço nas discussões atuais de educação? (...) A tradição proibiu o professor de pensar. E essa lógica ainda está presente entre nós, basta ver a forma que foi estruturada a nossa educação, com grades curriculares pouco flexíveis, provas, e um comportamento focado na disciplina. Isso tudo deve ser imediatamente revisto. Na prática, o aluno aprende mais facilmente.

E como essa reviravolta na educação do país que a senhora propõe deverá ser efetivada? Tudo isso que falei já é uma realidade em várias escolas públicas brasileiras. São casos reais que representam excepcionais casos de inovação. O que tem que ser feito no país, agora, é valorizar as boas práticas. E essas boas práticas devem ser alastradas como se fossem vírus. Mas toda a mudança depende de vontade política e também de consciência de todos. A mudança não deve começar do zero nem deve ocorrer da noite para o dia. Deve ser uma mudança cotidiana. Assim, a cada dia um novo cenário vai desenhando um novo cotidiano.

Fonte: http://porvir.org/nossos-alunos-precisam-saber-criar-conhecimento/

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