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Prazer em conversar

Na escola e em casa, educadores apostam no diálogo para orientar os jovens

Alegrias e angústias, paixões e incertezas, mudanças e decepções – vai tudo misturado, no caldeirão de emoções chamado adolescência. Aos educadores, cabe a ajuda preciosa para tourear sentimentos novos, na fase em que aflora a sexualidade, e a exposição ao mundo torna-se mais intensa. Entre papéis tradicionais e novos modelos sociais, muitas meninas enfrentam o preconceito e o aumento das responsabilidades domésticas, enquanto os meninos embrenham-se num duelo permanente por poder e força. 

Dramas e dilemas também cruzam o caminho de pais e professores, agravados pelos desafios sociais do Brasil contemporâneo. Quanto maior for a pressão do ambiente em que vivem, mais complexa será a travessia para os jovens. Em meio a uma torrente desordenada de informações, aparecem desafios, como o exercício da sexualidade, a prevenção a doenças sexualmente transmissíveis, a luta contra a gravidez precoce, as responsabilidades impostas pelo amadurecimento.

Na Bahia, em São Paulo e em Belo Horizonte, educadores tentam, nas escolas e em casa, promover o diálogo transparente e a troca permanente de informações. A aproximação de pais e professores, o incentivo à conversa aberta, e a disponibilidade para ouvir o que os adolescentes têm a dizer são algumas das iniciativas que apresentam os melhores resultados. Das boas práticas, surgirão adultos mais conscientes e preparados, dizem educadores que se ocupam da questão.

Sentimentos intensos

O relato da professora baiana Andréa Senhorinho é exemplar. Coordenadora do grupo de saúde do Colégio Estadual Renan Baleeiro, em Águas Claras, comunidade popular de Salvador, ela desenvolveu um amplo trabalho por meio de oficinas com parte dos 1.500 adolescentes – 90% negros – que estudam na instituição. Foram oito turmas, do 5º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio. A conversa tirou a tampa de emoções que ficavam reprimidas e ajudou os jovens a entender melhor a vida e o mundo que os cerca. Foram jornadas de muita conversa, exibição de filmes, debates e palestras. Falamos intensamente das relações com pais e mães, os sentimentos envolvidos nessa convivência.

“Descobrimos que ainda hoje os meninos são criados para serem machistas, e que, para ser fortes, não podem chorar”, conta Andréa. “Nosso trabalho tenta dissolver essa crença, para que o machismo não prevaleça”, diz ela, que observa um silêncio emocional nos meninos. Sempre na defensiva, escondem o que pensam dos relacionamentos sob uma couraça que, para eles, significa força. Uma eloquente barreira que precisa ser removida.

Surgiram questões dramáticas, como a homofobia que aparece ainda dentro de casa, com pais que se recusam a aceitar a orientação sexual do filho. Tudo foi tratado em dinâmicas que reuniram meninos e meninas, diálogos que levaram tempo, mas conduziram ao consenso.

Segundo Andréa, as meninas eram mais numerosas e participativas. Mas ela se lembra de um menino que discorreu sobre responsabilidade. “Ele disse que um homem de verdade precisava ser responsável. Falou ainda de amor e sexualidade. As atitudes estão mudando, e os jovens tentam assumir seu papel, com dignidade”, diz ela.

A escola participou de oficinas do programa Escola de Todos, do Cedaps, e contou com apoio também de organizações como a Promundo que defendem a mudança nas relações de gênero, buscando mais equilíbrio entre homens e mulheres. As intervenções da escola mudaram hábitos antes cristalizados. Os meninos refletiram mais sobre seu papel. “Descobrimos questões surpreendentes, como as maternidades do SUS, que são rosa, e não permitem que o garoto acompanhe a namorada no ultrassom”, diz Andréa. “Eles pensam: ‘Não vou lá porque é coisa de mulher’, e também não se sentem responsáveis”.

Além de reduzir a evasão escolar, as oficinas, iniciadas em 2003, diminuíram em impressionantes 90% os casos de gravidez adolescente. “A última oficina para gestantes que fizemos foi em 2006, quando eu estava grávida”, relembra a professora, mãe de uma menina de 3 anos. “Depois, não tivemos número suficiente para o trabalho”, comemora.

http://www.ondajovem.com.br/acervo/17/prazer-em-conversar

 

 

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