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O jeito de cuidar de Leonardo Boff

O que é Ética? Qual a sua importância na vida de todo o ser humano? Como os educadores devem servir-se dela para orientar seus alunos?


Entrevista


Construir Notícias –
 Em seus livros a ética está muito presente. Como define a “ética”.  Por que ela é tão necessária e importante atualmente?

Leonardo Boff – A ética surge quando o outro emerge diante de nós. Que atitude tomar diante do outro? Não podemos ficar indiferentes. Mesmo o silêncio é uma atitude. Podemos acolher o outro, podemos rejeitá-lo, subordiná-lo e até agredi-lo e eliminá-lo. Essas atitudes configuram a ética. (...) Nesta perspectiva, bom é tudo aquilo que aproxima as pessoas ou que corresponde de forma benfazeja às realidades circunstantes; bom é tudo o que cuida e expande a vida em todas as suas formas; mau é tudo o que ameaça, diminui e destrói a vida. A regra de ouro da ética quando confrontada com o outro é: “faça ao outro o que você quer que lhe façam a você”. Hoje pesa sobre a humanidade e o sistema da vida o pesadelo da depredação e até da destruição da vida e do projeto planetário humano. Somos todos vítimas de práticas  que exploram pessoas, classes, países, ecossistemas e o sistema Terra. São éticas anti-vida. Em razão disso, faz-se urgente uma ética salvadora que garanta a vida e o futuro do Planeta. Sem ética e uma cultura de valores espirituais que a acompanham não afastaremos o pesadelo e o encontro com o pior. Precisamos de uma ética mínima fundada do cuidado de uns para com os outros, com a vida e o Planeta, uma ética da cooperação e da solidariedade de todos com todos, pois somos interdependentes e só podemos viver e sobreviver juntos, uma ética da responsabilidade que toma consciência das consequências benéficas ou maléficas de nossas práticas e uma ética da compaixão que se mostra sensível para quem menos tem e menos é, para que não se sinta excluído mas inserido na comunidade de vida.

CN – A ética é um dos temas transversais da educação. Como os professores podem e devem vivenciá-la em suas salas de aula, escolas e famílias? Quais os benefícios e consequências trazidos por uma convivência fundamentada na ética?

LB – O primeiro passo consiste em despertar nos educandos a dimensão ética, respondendo à pergunta básica: como você trata seus pais, irmãos, amigos, colegas, o pobre que encontra na rua, o bichinho que atravessa a estrada, a planta que temos em casa? Como trato a mim mesmo (eu sou o outro diante de mim mesmo)? Como vejo atitudes éticas e anti-éticas nas novelas, na propagada, nos programas de televisão? Aqui se trata de desenvolver o espírito crítico. Em seguida, lembrar a regra de ouro: o que você gostaria que fizessem a você? Elencar as coisas e atitudes que você gostaria que se fizessem. Após, faça a mesma coisa aos outros,  como prescreve o preceito ético mínimo. Suscitar uma utopia ética: como imaginamos o mundo globalizado dentro de padrões éticos de cooperação, respeito à vida, sinergia com a natureza (...)? E, por fim, como podemos fazer as revoluções moleculares, quer dizer, que passos concretos, bem práticos, cada um pode fazer para ser uma pessoa mais ética, mais sensível a valores, mais cooperativa, mas aberta a aprender com os diferentes? Como se depreende, aqui há todo um programa ético, (...) atento ao futuro, à integridade e à beleza da natureza.

CN – Na verdade, as pessoas sabem o que é eticamente correto, no entanto, suas atitudes, por inúmeras razões, tendem a “passar por cima” dela, pois a ética já existe, ela não  é respeitada, mas existe.  O Sr. propõe  uma nova ética. Qual a diferença entre a “antiga” ética, que acredito ser a que conhecemos mesmo não sendo respeitada, e esta nova ética? Como  é esta nova ética? Como ela se estabelece?

LB – Não proponho uma nova ética. Mas o resgate de uma ética mais originária, ligada imediatamente à vida e tudo o que pertence à vida. Esta ética ancestral precisa ser redita e atualizada para o contexto de nossa cultura dominante. Esta possui também a sua ética. A cultura dominante se estrutura ao redor da categoria poder. O poder é entendido e exercido como dominação da natureza, de povos sobre outros, de classes sobre classes, de pessoas sobre outras pessoas. Predomina a lógica do interesse individual e não a lógica do diálogo, do encontro e da comunhão. A lei mais forte é a da competição e não da cooperação. Por isso há tantos excluídos e marginalizados, pois na competição só um ganha e todos os demais perdem, como é exemplar no esporte e no mercado. Precisamos da lógica da gratuidade, do respeito do outro e da cooperação de todos com todos. É a lei de John Nash, do ganha-ganha, onde  mediante o diálogo, negociação e aliança todos ganham e todos coevoluem, projeto tão bem mostrado no filme “Uma mente brilhante”. Hoje somos urgidos a viver esta lógica, pois não há mais uma arca de Noé que salva alguns e deixa perecer os demais. Agora ou nos salvamos todos ou nos perdemos todos.

CN – No seu livro Saber Cuidar o Sr. analisa uma fábula de Higino sobre o cuidado. Nele o CUIDADO é proposto com essência humana, sendo mais fundamental até do que a razão e a vontade. Qual a explicação para essa concepção?

LB – Vida sem cuidado não existe. Se não cuidarmos de um recém-nascido em poucas horas ele morre. Mesmo depois, tudo deve ser cuidado para durar mais e mesmo para sobreviver. Se não cuidarmos dos alimentos nos podemos envenenar, se não cuidarmos no tráfego podemos ser atropelados e morrer e assim por diante. O cuidado é a pré-condição que permite a reprodução da vida, cria espaço para que surja a inteligência, a liberdade e a criatividade. Sem o cuidado essas coisas não teriam condições de emergir. É a essência do humano, pois é aquela instância mínima que condiciona, suporta e garante a existência de tudo o mais no ser humano. Daí pertencer o cuidado à essência em grau zero de todo tipo de vida, especialmente da vida humana. E o cuidado representa uma relação amorosa para com a realidade, relação que protege e dá segurança à vida. Onde há cuidado não há violência. Bem dizia Gandhi: a política é o cuidado para com a coisa pública, o gesto amoroso para com o povo e suas necessidades.

CN – O Sr. defende que devemos ter como perspectiva a fase planetária e ecológica da humanidade. O que é esta fase, como ela se encontra presente no nosso cotidiano e qual a sua relação  com a ética?

LB – Graças à inter-relação que os seres humanos estabeleceram entre si pelo comércio mundial, pelas comunicações, pelas viagens e trocas culturais, entramos numa fase nova da humanidade, a fase planetária. Os povos que estavam reclusos em suas culturas e regiões começam a se encontrar num único lugar, vale dizer, no mesmo planeta Terra. Descobrimos a família humana, com muitos membros, de cores e valores diferentes, mas todos, representantes da mesma família humana. E nos damos conta de que Terra e humanidade possuem uma mesma origem e teremos um mesmo destino. Comparecemos juntos face ao futuro. E aí se levantam questões fundamentais: como garantirmos uma convivência minimamente pacífica e humana entre todos? Como preservar a Casa Comum para que todos possam caber dentro dela, a natureza incluída? Ai se impõe um consenso mínimo em termos de comportamentos e atitudes. Ora, a ética se ocupa exatamente destas questões. Dai a preocupação de estabelecer um consenso mínimo sobre alguns valores sem os quais não poderemos viver juntos nem garantir o futuro comum, na linha que expus na primeira questão respondida acima, o cuidado, a cooperação, a corresponsabilidade e a compaixão.

Fonte: http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=488

 

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